Entenda o que é a gaguez

A gaguez trata-se de uma perturbação da fluência da fala em que a pessoa sabe exatamente o que pretende comunicar, mas apresenta alterações ao nível do ritmo e da continuidade do discurso, nomeadamente repetições, prolongamentos, pausas e bloqueios. Esta perturbação pode afetar múltiplos aspetos da vida do indivíduo, devendo ser compreendida como uma condição de natureza multifatorial.

Assim, a mesma pode se subdividir em 2 tipos:

  • Gaguez transitória;
  • Gaguez persistente.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre gaguez transitória e gaguez persistente?

A gaguez transitória refere-se ao conjunto de disfluências normais e esperadas que surgem durante o desenvolvimento da linguagem (por norma, entre os 2 e os 5 anos).

No caso da gaguez persistente, estas disfluências mantêm-se ao longo do tempo e não desaparecem espontaneamente. Esta continuidade implica uma maior atenção clínica e a possibilidade de necessidade de intervenção especializada. Embora não seja possível determinar com total certeza quais as crianças que irão desenvolver gaguez persistente, existem alguns fatores associados a uma maior probabilidade de manutenção do quadro. Entre estes, destaca-se a duração superior a 6 meses desde o início ou a ausência de melhoria ao longo de vários meses, o que constitui um indicador clínico relevante de possível persistência.

Aquilo que distingue principalmente a gaguez transitória da gaguez persistente é a permanência das disfluências. No caso da gaguez transitória, estas desaparecem espontaneamente, sem necessidade de intervenção da Terapia da Fala.

Quais são os fatores que geram a gaguez?

As causas da gaguez são multifatoriais, incluindo fatores genéticos e neurofisiológicos. Ainda assim, fatores ambientais e exigências da fala podem causar as disfluências e podem influenciar as reações internas negativas de uma pessoa em relação à gaguez. Os fatores ambientais incluem dinâmicas familiares, um estilo de vida acelerado, stress e ansiedade.

Saiba mais em: Fatores de Risco

Qual é a intervenção recomendada?

Apesar da gaguez não ter cura, é possível intervir de modo a reduzir significativamente os seus efeitos e o seu impacto na comunicação e no bem-estar do indivíduo. A intervenção precoce é bastante beneficiente no âmbito em que pode ajudar a evitar, em muitos casos, que a gaguez se torne persistente. 

O tratamento pode incluir acompanhamento por um terapeuta da fala, estratégias de comunicação adaptadas ao dia a dia e o apoio da família e da escola. Criar um ambiente calmo, dar tempo à criança para falar e evitar pressões ou interrupções são atitudes fundamentais para promover uma comunicação mais confiante e positiva.

Cada criança é única, pelo que a intervenção deve ser ajustada às suas necessidades e características individuais.

Existe alguma idade ideal para intervenção?

Quanto mais cedo forem identificados os sinais de gaguez e iniciada a intervenção, maiores são as probabilidades de reduzir o seu impacto e favorecer uma evolução positiva.

A idade pré-escolar e os primeiros anos de escolaridade são considerados fases importantes para acompanhar a criança, uma vez que é durante este período que a linguagem e a comunicação estão em desenvolvimento. Assim, a deteção precoce permite uma intervenção eficaz reduzindo os efeitos e em muitos casos evita que os mesmos se tornem persistentes, através de estratégias focadas na fala e em atitudes pessoais relacionadas com o medo e tensão muscular.

No entanto, a intervenção pode ser benéfica em qualquer idade. O mais importante é estar atento aos sinais, procurar apoio especializado quando necessário e criar um ambiente de comunicação calmo, seguro e sem pressões.

Mitos e Verdades sobre a Gaguez que talvez não saiba 

Mito nº 1

Deve-se corrigir a criança quando esta gagueja.

Mito nº2

"Não há nada a fazer."

Mito nº3

Ajuda dizer à pessoa com gaguez para “respirar fundo antes de falar” ou “pensar primeiro no que vai dizer”.

Mito nº4

Se eu não gaguejo em algumas situações (por exemplo: cantar, ler em coro, falar com outro sotaque, representar um personagem, sussurrar), é sinal de que posso ser fluente em todas as situações. Se não consigo ser sempre fluente, a culpa é minha.

Verdade nº1

Muitos pais, com a melhor das intenções, tentam ajudar dizendo “tem calma”, “respira fundo antes de falares” ou completando as palavras ou frases do seu filho. Porém, estas "ajudas" aumentam a pressão comunicativa e fazem com que a criança se sinta observada e frustrada por não conseguir transmitir o que pretende no timing esperado, o que aumenta a probabilidade de agravar a gaguez.

O mais eficaz é dar tempo para que a criança conclua a sua frase no seu ritmo, manter contacto visual e mostrar interesse pelo conteúdo da mensagem, em vez de se focar na forma como as palavras estão a sair. Esta postura transmite segurança e ajuda a reduzir a ansiedade associada à fala.

Verdade nº2

Existem programas terapêuticos específicos, adaptados à idade e às necessidades individuais de cada criança e de cada família. Em idade pré-escolar e escolar podem ser utilizadas abordagens de reestruturação da fala e técnicas comportamentais que ajudam a reduzir a frequência e gravidade da gaguez, assim como os comportamentos de evitamento. Além de melhorar a fluência, a intervenção precoce e especializada atua ao nível do impacto emocional e social, prevenindo sentimentos de frustração, baixa autoestima e evitamento de situações comunicativas. Segundo a comunidade científica, quanto mais cedo se inicia o acompanhamento, maiores são as probabilidades de sucesso e menor o risco de a gaguez se tornar persistente na idade adulta.

Verdade nº3

Estes conselhos apenas deixam a pessoa mais consciente do seu problema, podendo, agravar a gaguez. Respostas mais adequadas incluem ouvir pacientemente e dar você mesmo o exemplo, falando de forma pausada e clara.

Verdade nº4

Dependendo do contexto, a fala é processada em diferentes partes do cérebro. As variações situacionais da gaguez refletem diferenças no modo como o cérebro processa a fala de acordo com a circunstância, usando o sistema pré-motor medial ou o sistema pré-motor lateral. Na gaguez, o sistema pré-motor medial, responsável pela fala espontânea, é o que tende a estar comprometido. Por outro lado, o sistema pré-motor lateral, responsável pela fala não-espontânea (como falar sozinho, cantar e sussurrar), tende a estar íntegro. Assim, a melhoria da gaguez em situações que não envolvem fala espontânea é esperada.

Referências:

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